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Mundo aberto e subserviência, por Gustavo Gollo



Costumamos pensar no infinito como algo muito distante. Um matemático muitíssimo criativo chamado Georg Cantor, no entanto, mostrou que a infinitude “para dentro” — aquela que existe até entre dois pontos muito próximos —, é infinitamente maior que a infinitude “para fora” — aquela que corresponde à nossa ideia usual de infinito. Ou seja, encontramos mais infinitude olhando para dentro de qualquer coisa, buscando-a em cada ponto, que ao olharmos para longe. A conclusão paradoxal é aceita pelos matemáticos.


Essa infinitude inusitada revela estarmos imersos em um imenso mar de possibilidades que não costumam ser notadas. Vivemos como se a cada instante tivéssemos apenas um pequeno número de escolhas, quando muito. A cada momento, no entanto, nos deparamos com infinitas possibilidades, embora não as reconheçamos conscientemente, vivemos sob antolhos.


Gostamos de compartilhar contextos com as demais pessoas, exigência de nossa socialização, atualmente. Diferenças de contexto tendem a gerar estranheza e desagrado. Nosso conservadorismo radical exige que todos nos adequemos aos mesmos contextos. O resultado é uma intolerância drasticamente empobrecedora. Recusamo-nos a ver a imensa infinidade ao nosso redor, impedindo-nos perceber a enorme diversidade e riqueza que descobriríamos se olhássemos o mundo com outros olhos. Apenas artistas e loucos fogem a essa regra. Frequentemente, a arte tem como propósito revelar ângulos insuspeitos daquilo que já é conhecido, retirando-nos os antolhos.


Comodamente, no entanto, exigimos o compartilhamento de nossos contextos, cerceando inadequações de todos os tipos. Quando o intolerante se sobrepõe, elimina a posição do tolerante, enquanto o contrário não ocorre, de modo que a intolerância age como uma válvula retentora, estabelecendo um fluxo unidirecional. Resulta desse “imperialismo cotidiano” a homogeneização empobrecedora, esse flagelo contemporâneo.


Em tempos passados, as pessoas viajavam em busca de outros modos de ver o mundo, enriquecendo, desse modo, sua própria visão. Cada lugar, cada povo, tinha peculiaridades próprias e exclusivas que eram oferecidas aos viajantes. Transformamos o mundo em uma maçaroca homogênea, caricatura das sobras despejadas ao povão da metrópole imperialista. Empobrecemos, compelidos a encarar o mundo sempre sob um único ângulo. Não estando encarcerados, podemos nos locomover, desde que para lugar idêntico ao que estamos.


O cinema e meios de comunicação nos convenceram da superioridade dos da metrópole, fazendo-nos sentir inadequados se não os imitamos, compelindo-nos a macaqueá-los pateticamente. O propósito dessa depauperação é a facilitação da sujeição das populações do mundo inteiro a um único centro de dominação. Grupos homogêneos respondem mais precisamente aos ordenamentos que lhes são impostos.


Tendo-nos adestrado a vestir nossas próprias cangalhas, exigimos que todos se emparelhem com a mesma soberba com que nos encangalhamos.



 
 
 

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