Teoria, por Gustavo Gollo
- Gustavo Gollo
- 25 de nov. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2022
Publicado em 18 de abril de 2018

Se perguntássemos: qual a maior de todas as obras do espírito humano?,as respostas divergiriam amplamente. Uns evocariam grandes construções ─ como as pirâmides ─, outros elegeriam uma música extraordinária, filmes, maravilhas tecnológicas ─ como aviões ou computadores ─; uma vasta diversidade resultaria certamente das respostas. O resultado da pergunta seria uma lista longa e diversa, conforme gostos variados e preferências subjetivas. Quanto a mim, eu escolheria as teorias científicas.
Entre os leigos, a palavra “ciência” costuma estar associada à experimentação, ainda que a “grande ciência” ─ aquela verdadeiramente espetacular, capaz de causar enorme espanto e admiração ─, seja a ciência teórica.
Talvez por isso, a ciência teórica ─ aquela advinda de mentes brilhantes como em uma espécie de delírio criativo ─, é quase desacreditada, fato atestado por expressões pejorativas como “ciência de gabinete”. Se o leitor tentar relembrar o nome de físicos famosos, no entanto, provavelmente, só listará físicos teóricos, “cientistas de gabinete” que nunca fizeram experiências, como Einstein, Bohr, Heisenberg, Planck e tantos outros.
Já relembrei aquele que considero o grande momento da história da humanidade.
Contarei um outro não menos espantoso.
Em 1905, Einstein teve um grande delírio e vislumbrou a teoria da relatividade. Tratava-se de uma visão de mundo completamente despropositada, um contrassenso total que subvertia tudo o que se pensava sobre todas as coisas. Em uma só tacada, Einstein reformulou as concepções de espaço, tempo, massa e energia, alterando nossa compreensão sobre todas as coisas materiais, revolvendo tudo, ampla e drasticamente.
Esse delírio não tinha pé nem cabeça, tinha brotado sub-repticiamente na mente do cara, e só acabou sendo levado a sério por duas ou 3 razões: no mesmo ano de 1905, Einstein havia proposto uma explicação estranha e revolucionária para o efeito fotoelétrico, um fenômeno anômalo que desafiava a compreensão dos físicos da época. Embora mirabolante, pressupondo que a luz fosse constituída por pipoquinhas que Einstein denominou “fótons”, a explicação se encaixou tão perfeitamente no fenômeno que não pôde ser negada, e acabou por lhe valer o prêmio Nobel, anos depois.
No mesmo ano, Einstein tinha explicado, também, o movimento browniano, um fenômeno enigmático conhecido havia várias décadas e que desafiava a compreensão. Para isso, Einstein pressupôs a existência de pedacinhos de matéria bombardeando as minúsculas partículas sobre a superfície da água, originalmente grãos de pólen, ressuscitando assim, ou fortalecendo, a ideia de átomos, um antigo conceito sempre ressurgente, mas muito duvidoso, na época.
As duas façanhas descomunais davam certo respaldo ao delírio relativístico proposto pelo mesmo autor.
A existência prévia de umas equações conhecidas como “transformações de Lorentz” também contribuíram para que alguns levassem o delírio a sério. Tais equações, aliás, devem ter tido um papel na irrupção do arrebatamento delirante.
De qualquer forma, o delírio de Einstein decorreu de um postulado absurdo: a constância da velocidade da luz, um pressuposto incompatível não só com a mecânica newtoniana, mas com nossas concepções usuais de tempo e espaço. Para que a velocidade da luz independa completamente das velocidades relativas entre fontes de luz e observadores, tempo e espaço devem sofrer estranhas alterações, comportando-se de maneiras francamente bizarras. Os absurdos consequentes de tal pressuposto costumam ser ilustrados em quase todas as divulgações da teoria.
A relatividade
A tarefa a que Einstein se propôs talvez possa ser descrita assim: Considerando-se que a velocidade da luz seja invariante, como tem que ser o mundo? Então, partindo desse pressuposto, Einstein construiu uma descrição do mundo surpreendente e bizarra, que lhe pareceu muito mais bela e bem acabada que a idealizada por Newton, essa bastante similar às concepções usuais, à maneira como todos nós vemos o mundo.
A audácia de Einstein foi extrema; ninguém ─ nem mesmo os loucos mais completamente desvairados ─, jamais havia ousado propor teoria tão herética, tão profunda e amplamente descompassada de tudo o que se acreditasse até então. É possível que a maior virtude de Einstein tenha sido sua coragem.
Notemos que Hendrik Lorentz, um dos maiores físicos de todos os tempos, já havia composto o “esqueleto” matemático da relatividade, as transformações de Lorentz, tendo sido, no entanto, incapaz de interpretá-las literalmente, e acreditar na realidade de algo tão profundamente destoante de todas as crenças comuns.
O eclipse de 1919
Pessoas comuns costumam conectar umas coisas a outras, mas apenas de maneiras fracas e vagas. A matemática, em contraste, permite estabelecer conexões extremamente precisas, de modo a conectar com absoluta precisão coisas aparentemente desconexas, destituídas, eventualmente, de qualquer ligação aparente entre umas e outras.
Uma das raras predições relativísticas passíveis de confirmação, na época, consistia na inferência de que, nas proximidades do sol, as estrelas se apresentariam de uma forma diferente da usual devido a uma deformação do espaço causada pelo sol, expectativa que não teria o menor sentido à luz de outras teorias. Essa profecia poderia ser testada durante um eclipse total, quando a lua impede que os raios solares iluminem a atmosfera e ofusquem as estrelas.
Em 1919, nenhum fato, ainda, havia sido observado que confirmasse o delírio de Einstein, ocorrido 14 anos antes. Nada atestava o desvario revolucionário que subvertia tudo o que se imaginava sobre coisas materiais, lugares e momentos. Em tal circunstância, parecia um contrassenso apostar em tamanho absurdo. Uns poucos aventureiros, no entanto, preferiram desconsiderar o bom senso e apostar no desatino do gênio, idealizando duas expedições ─ uma para a África, outra para o Brasil (Sobral, CE) ─, onde ambas as equipes fotografaram o fenômeno no momento em que a lua encobria o sol, permitindo comparações com o mesmo quadro em situação normal. Tais comparações revelaram a estranha contração do espaço, mostrando que o aparente delírio de Einstein constituía, de fato, um vislumbre profético assombroso (a maioria minimiza o fato chamando-o de predição, ou cálculos; considero o fato espantoso, digno da mais alta reverência de todas as mentes que o rememoram).
Penso que a maioria tem dificuldade em vislumbrar e admitir a força de uma teoria, de imaginar qualquer relação possível entre considerações sobre a constância da velocidade da luz e a posição das estrelas em torno do sol, como se tal profecia se assemelhasse a algum tipo de predição astrológica sem pé nem cabeça. Permitam-me ressaltar: tratava-se de uma predição exclusivamente teórica, contrária a todas as observações anteriormente efetuadas.

Ficção e teoria
Do meu ponto de vista, teorias são ficções, mas de um tipo especial. Escritores fantásticos, como Andersen, Lovecraft e Tolkien construíram mundos maravilhosos em seus devaneios, mas mundos meramente fictícios, sem nenhum referente real, exceto o metafórico. Os cenários onde Cthulhu e Gandalf teriam vivido não existem no mundo real. Embora ainda mais fantástico, mais surpreendente que tais mundos, o delírio de Einstein adquiriu o status de uma ficção realista ― ou de uma teoria científica, o que é o mesmo ―, ao ser corroborado pelo eclipse de 19, e por inúmeras outras evidências, desde então; GPSs, por exemplo, não seriam tão precisos sem correções relativísticas. Fossem encontradas ruínas análogas às de Cthulhu, e Lovecraft seria alçado à categoria de cientista teórico.
Ciência e teoria
Os que conhecem a grandiosidade das teorias desenvolvidas no séc. XIX, como a do eletromagnetismo, do calor, da evolução e outras, tendem a se decepcionar profundamente com os desenvolvimentos ocorridos nas últimas décadas, apesar da imensa disseminação recente da profissão de cientista, tanto nos grandes centros norte-americanos e europeus, quanto em países populosos como China e Índia ─ grandes centros contemporâneos de pesquisa científica. Embora o número de cientistas tenha se multiplicado enormemente nos últimos 100 anos, e apesar da explosão de verbas destinadas à pesquisa científica, desde então, nada como a maravilhosa revolução detonada por Einstein tem se repetido em todo esse tempo. A estagnação científica sob a qual temos vivido desde então corresponde a uma profunda decepção. Tente repassar as últimas décadas em busca de teoria emergente minimamente comparável à de Einstein, ou às do século anterior a ela, e perceberá a pobreza de nossos tempos. (Embora venha sendo desenvolvida muita tecnologia ― lembrando que ciência não gera patente).
Tratei desse tema aqui, referindo-me à estagnação científica contemporânea ― consideração incontestável tendo-se em mente as magníficas criações do passado ―, sem atentar para o fato de que poucos têm noção do que sejam as teorias:
Teorias são criações mentais maravilhosas, delírios especialíssimos, capazes de minimizar as sinfonias mais altissonantes.
Exorto os jovens para nunca perderem de vista a grandiosidade das teorias; ao fazer ciência, engendrem suas próprias obras com espírito grandiloquente, delirem e componham os mais belos mundos com os quais consigam sonhar. O que Einstein vislumbrou foi um mundo mais belo que o pintado por Newton, foi a consideração estética que garantiu ao gênio a confiança na veracidade de sua criação.
Tenho muito orgulho de ter criado este, permitam-me mostrá-lo. Deliro, ainda hoje, com sua beleza:
Este também é belo:
Um mais simplinho:
Séculos atrás, em tempos religiosos, Gottfried Leibnitz, um grande filósofo e matemático considerou que sendo o Criador onipotente, teria sido capaz de criar o melhor dos mundos, e por ser sumamente bom, teria que ter criado exatamente tal mundo, sendo o nosso, portanto, o melhor de todos os mundos possíveis.
Esse raciocínio leva à conclusão de que o mais belo mundo pintado por uma teoria se aproximará do real. Talvez o jovem cientista desconfie de tal argumentação, meio fora de moda. Mesmo que isso ocorra, recomendo apostar nela em nome da alegria; aposte na beleza dos mais maravilhosos mundos que consiga criar e delire o mais grandiosamente que puder. Delire como se buscasse um gol!
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